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O mito do “para ser escravo é preciso estudar”

Existia em Portugal a percepção de que o “canudo” (licenciatura) era um garante de emprego. De tal forma que tem sido noticiado ao longo dos últimos anos o crescimento do número de desempregados licenciados. É real, sem qualquer dúvida.

No entanto, a percepção (à boa moda Portuguesa) passou do 8 para o 80. E já são várias vezes que ouvi da boca de adolescentes frases como “não vale a pena estudar”. O último sinal dessa percepção é o verso da música “Parvo que sou” dos Deolinda: “Que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar.”

A realidade é outra, portanto vamos aos números referentes a 2010:

Taxa de desemprego: 11,1% (619 milhares de pessoas em 5 567,8 milhares de pessoas)

Taxa de desemprego de pessoas com formação superior: 8,2% (75,6 milhares de pessoas em 917,4 milhares de pessoas)

Taxa de desemprego de pessoas sem formação superior (secundário ou menor): 11,5% (533,4 milhares de pessoas  em 4 650,4 milhares de pessoas)

No entanto as pessoas queixam-se principalmente do primeiro emprego, pelo que vejamos os números para faixas etárias mais reduzidas até aos 34 anos:

Taxa de desemprego de pessoas com formação superior: 13,63% (57,3 milhares de pessoas em 420,3 milhares de pessoas)

Taxa de desemprego de pessoas sem formação superior (secundário ou menor): 16,37% (230,0 milhares de pessoas em 1 405,1 milhares de pessoas)

Ou seja, mesmo com a desvantagem de menos anos de experiência no mercado de trabalho, alguém com uma licenciatura tem menos probabilidade de ficar a depender dos pais ou do estado do que um não licenciado.

Fonte de Dados: INE – Inquérito ao Emprego
Fonte: INE
Dados recolhidos a 2011-03-18 referentes ao 4º trimestre de 2010

Posted in Sociedade.


4 Responses

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  1. Jorge Sousa says

    A maior parte das pessoas não compreendeu sequer a maior expressão empírica desse verso, por isso não leve o adjectivação de que ignora a realidade muito a peito. Na verdade, essas estatísticas nem sequer tocam no ponto essencial. Os Census 2011, também do INE, manifestam igualmente uma ignorância absoluta a esse respeito.

    Em rigor, um estágio não é emprego. Ponto um. Quem estagia não está empregado nem está à procura de emprego. É um vazio. Ainda assim, o fenómeno relativamente residual dos estágios remunerados parece ser de incluir nos Census. Já os estágios subsidiados pelo Estado (a esmagadora maioria), não se podem apresentar como remuneração. Aspectos, contudo, irrelevantes face às estatísticas que apresenta, pois estágios não constituem emprego, do mesmo modo que não constituem desemprego.

    Mas o ponto onde a maior ignorância se tem manifestado reside nos estágios não remunerados. Estes tornaram-se sistema. Afinal, face às circunstâncias (nada a ver com a crise) são a decisão empresarial mais lógica. Quais são essas circunstâncias? Bem, tudo começou há cerca de duas décadas, altura em que se começaram a abrir mais e mais Universidades, mas sobretudo, mais e mais vagas nos cursos, de forma perfeitamente desfasada com as reais necessidades.

    Duas décadas volvidas, o mercado está saturado e existe uma torrente de recém-licenciados. Há cerca de 5 anos atrás, quando ainda estava a meio do curso, resolvi dar uma vista de olhos pelo que se exigia. A maioria exigia dois anos de experiência. Hoje já se começa até a pedir mais, mas não importa muito. As empresas têm necessidades laborais, mas existe uma oferta constante de recém-licenciados, a “necessitar” de experiência. Para quê contratar? Os recém-licenciados são qualificados. Têm conhecimentos. Podem não ter o total domínio de como aplicar os seus conhecimentos e qualificações, mas é, do ponto de vista empresarial, obviamente, preferível um mês de ajustamento a pagar vg. um ano de ordenados. Volvido o período do estágio, o ciclo renova-se.

    As estatísticas de emprego são absolutamente irrelevantes para esta realidade. Mas absolutamente.

    Mais ainda porque, no caso de estágio dito remunerado, não apresentam o desfamento que existe entre o valor da “remuneração” no estágio e o valor a remuneração no contrato de trabalho que (com sorte) lhe sucede. Não me ocorre ninguém que tenha ficado a ganhar mais ou sequer o mesmo, findo o estágio.

    Outra realidade que as estatísticas de emprego não representam tem a ver com os conhecidos “falsos recibos verdes”. Desde logo, existe um movimento de desinformação dessas pessoas, pois basta irem a um advogado e apresentarem a sua situação no tribunal respectivo para verem o contrato de prestação de serviço convertido em contrato de trabalho (se tem subordinação hierárquica, horário e remuneração fixa, uma alegação em contrário nem sequer tem cabimento). Mas, enfim, uma prestação de serviço não é emprego, indubitavelmente, como também não é desemprego. Em que é que as estatísticas de emprego ajudam? Em que é que os Census 2011 vão ajudar? Zero.

    Eu até admito que muitos adolescentes atirem esses bitaites sem saberem bem porquê. Mas estou-lhe a eu a dizer porquê, com situações concretas, já que os pseudo-intelectuais (podem ser intelectuais em muitas coisas, mas não têm 20-30 anos para conhecerem a realidade) da nossa Opinião Pública ignoram olimpicamente todo este fenómeno.

  2. Jorge Sousa says

    Ah! Esqueci-me ainda de outra realidade cada vez mais frequente nesta geração 20-30 que nenhuma estatística de emprego sonha sequer captar. A emigração. Conheço imensa gente que optou por isso. Opção facilitada para quem teve o empurrãozinho de Erasmus. Também porque a sua opção académica é a isso propícia. Fala-se há anos de uma “fuga de cérebros”, mas esta só se tornou mais significativa, mais numerosa, nos últimos anos. Esses não estavam em nenhuma manif.

  3. mestrejoao says

    Em relação ao “Não me ocorre ninguém que tenha ficado a ganhar mais ou sequer o mesmo, findo o estágio.” Felizmente conheço, assinei alguns desses contratos.

    A maior confusão para mim continua a ser que a empregabilidade após a conclusão da licenciatura não seja sequer uma pergunta frequente a que as universidades tenham de responder. A sério, se me fosse meter a estudar 3 anos para uma vida melhor, eu verificaria (como o fiz no meu tempo) quais seriam os resultados expectáveis. Hoje em dia ainda vejo a cara de estranheza que muitos responsáveis pela divulgação dos cursos fazem perante essa pergunta. Porquê? Não lha costumam fazer…

  4. Tiago Rodrigues says

    Mas e’ isso que as universidades nao percebem e nao vao resolver. Porque nao lhes da jeito. Qual e’ o objectivo de uma universidade portuguesa hoje em dia? Nao e’ formar pessoas com qualidade e nas areas necessarias e avancar com a pesquisa necessaria ao pais. E’ simplesmente, formar pessoas suficientes para continuar a responder aos numeros exigidos pelo estado, e atrair estudantes suficientes que paguem propinas e providenciem os fundos necessarios as universidades.

    Entao temos todos os anos centenas de alunos em cursos cujo mercado esta completamente saturado, e cursos que fecham porque tem menos de 20 alunos mas que se calhar ate sao necessarios. Alem disso, como forma de aumentar estes numeros o facilitismo aumentou em todo o sistema escolar e universitario. Lembro-me perfeitamente de caloiros do meu curso a nao conhecerem conceitos absotulamente essenciais e que fazem parte das provas de acesso a universidade, porque gracas a novas coisas como a Matematica B conseguiram entrar para o curso sem esses conhecimentos. Culpa do ensino secundario que providencia este facilitismo, e culpa das universidades que permtiem que os alunos entrem sem este conhecimento. E no fim o que e’ que acontece ? Temos de formar os meninos nao e’? Entao vamos baixar a barreira de dificuldade para que eles acabem os cursos.

    O resultado sao supostos licenciados que possuem uma serie de conhecimentos dispares que nao conseguem aplicar em qualquer situacao.

    E para piorar, temos a tremenda falta de interesse dos estudantes, que acham que o curso lhes vai dar toda a preparacao necessaria, e que nao se interessam minimamente pela area. Nao tentam perceber se existe emprego antes de entrarem para um curso, nao tentam perceber que coisas poderao aprender por eles e que melhorem os seus conhecimentos em relacao aos outros, nao se envolvem em actividades extra curriculares que os levem a aprender mais e a fazer coisas que se calhar nao vao fazer nas aulas….



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