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O dinheiro que tenho no banco – é mesmo meu?

A pergunta na realidade quer dizer: se eu for buscar o meu dinheiro ao banco, dão-mo? A resposta é simples e, para alguns, assustadora: sim, se for um movimento normal, não se quiser levantar todo o seu dinheiro ao mesmo tempo que as outras pessoas (ou, pelo menos, mais que uma em cada doze pessoas). A ideia deste artigo não é criar pânico ou assustar alguém, o sistema tem funcionado bem na sua forma actual. É só que as expectativas que as pessoas têm são maiores que as garantias efectivamente existentes.

Resumo:

  1. Os bancos têm apenas uma pequena percentagem dos fundos disponíveis comparativamente aos depósitos. Uma corrida ao banco vai sempre resultar nesse banco falhar.
  2. O Fundo de Garantia de Depósitos que se responsabiliza por pagar até 25.000€/pessoa tem apenas dinheiro para uma pequena percentagem dos depósitos cobertos pela garantia.

Um banco nunca tem disponível todo o dinheiro depositado. O negócio do banco é pegar nos depósitos e emprestar esse dinheiro a outros que pagam juros sobre esses empréstimos. Pelo que é normal que o dinheiro não esteja lá (está emprestado).

As regras são definidas pelo Banco de Portugal (habitualmente em consequência de acordos internacionais, neste caso, os acordos Basileia) obriga os bancos a ter uma percentagem de 7% de Tier 1 (Fundos Próprios de Base). Este valor define os fundos que o banco tem de ter sempre. O Banco de Portugal recomenda 8%. Este fundos não são apenas dinheiro, pelo que uma corrida a qualquer banco (levantamento em massa de depósitos pelos depositantes) resultará sempre numa falha do banco de entregar o dinheiro rapidamente.

Quando um banco falha a entrega do dinheiro dos depositantes e o banco não consegue repôr esses valores em tempo útil o banco falha. Não é permitido a um banco exigir a devolução do dinheiro que emprestou imediatamente. Mesmo que fosse, não é provável que as pessoas/entidades a quem fosse emprestado o dinheiro o tivessem pronto a devolver (a maior parte dos empréstimos encontram-se em crédito à habitação e ao consumo – se as pessoas tivessem esse dinheiro não iriam pagar juros por ele, em princípio).

Nessa altura entra o Fundo de Garantia de Depósitos (FGD) em jogo. Este fundo garante até €25.000/depositante (indivíduos ou sociedade) de despósitos à ordem e a prazo. Este valor é, até 31 de Dezembro de 2011, de €100.000. A questão importante aqui não é o valor de cada depositante, mas o valor que o fundo actualmente detém para pagar estes valores. Segundo o relatório de contas de 2009 (o último disponível) existiam nos bancos portugueses 296 mil milhões de euros em depósitos a 31/12/2009. Desses valores, 145 mil milhões estão cobertos pelo FGD. O problema é que o FGD tem um total de 1,4 mil milhões de euros para cobrir esses 145 mil milhões de depósitos: um pouco menos de 1%.

Ou seja, se um banco que tenha mais de 1% dos depósitos falhar, o FGD não tem meios para garantir oa valores legais aos depositantes.

As conclusões já foram dadas acima, mas vale a pena revisitá-las:

  1. Os bancos têm apenas uma pequena percentagem dos fundos disponíveis comparativamente aos depósitos. Uma corrida ao banco vai sempre resultar nesse banco falhar.
  2. O Fundo de Garantia de Depósitos que se responsabiliza por pagar até 25.000€/pessoa tem apenas dinheiro para uma pequena percentagem dos depósitos cobertos pela garantia.

Só uma nota final para quem ache que manter o dinheiro debaixo do colchão é melhor: verifique se tem um sistema de segurança decente antes de tomar essa decisão. Um banco falhar é muito mais raro do que um roubo de uma casa…

Posted in Finanças, Sociedade.

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9 Responses

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  1. Francisco Cabrita says

    Artigo excelente.

    Questão: Esse fundo é o mesmo q actua numa ‘banca rota’ ou simplesmente não há nenhum sistema de segurança e ai é como se um roubo se tratasse?

    Parabéns pelo artigo. Keep the good work.
    Francisco

  2. rafaqueque says

    Eu sinto-me dividido: gosto do dinheiro no banco e não gosto.

    Gosto porque não corro o risco de ter a casa assaltada e ficar sem ele. Não gosto porque sinto que o meu dinheiro não está ali na sua totalidade (apesar de não ser muito).

    No entanto, tenho feito um misto entre os dois, não me consigo decidir. Btw, bom texto e deu para esclarecer umas dúvidas.

  3. joao matos says

    tendo em conta o dinheiro que já me comeram desde que abri a conta; o numero de vezes que me assaltaram a casa e o que ganhei com isso… não vivo no medo

  4. mestrejoao says

    Francisco: sim, é este o fundo que actua no caso de bancarrota. Como vês não dá para tudo.

    João Matos: nesse caso, recomendo que ponhas uma certa quantidade de dinheiro no seguro da casa. Não sei quanto pagarás por isso, mas suspeito que seja menos que as comissões bancárias. Também podes procurar outro banco. Eu pago €15/ano por um cartão de crédito e as taxas de conversão quando compro algo em dólares ou libras. Não me queixo.

    Cumprimentos,
    João Miguel Neves

  5. João Rato says

    Uma correcção. O FG garante até 100.000€ por depositante e não 25.000€. Toda a informação encontra-se disponível em http://www.fgd.pt/pt-PT/Paginas/inicio.aspx
    Recomendo a leitura das FAQs e também dos Relatórios e Contas do Fundo. Infelizmente ainda não está disponível o do ano de 2010 (supostamente deverá já existir pois têm que ser apresentados até 31 de Março). Da leitura dos RC conclui-se que há uma grau de cobertura dos depósitos “baixo” e para além disso a cobertura é feita na grande maioria com bilhetes do Tesouro (dívida pública) e não por numerário (cash). Ou seja, se o sistema bancário ruir todo por completo não haverá meios capazes de responder junto dos depositantes. Isto em teoria. O melhor exemplo prático é a Irlanda cujos motivos da crise e das intervenções do FEEF e do FMI foi precisamente o colapso das instituições bancárias.

  6. mestrejoao says

    A garantia de €100.000 é temporária e só se aplica até ao final do ano de 2011. Se um banco falhar a partir de Janeiro de 2012 a garantia mantém-se nos 25.000€.

  7. antonio says

    A melhor maneira de guardar o dinheiro é coloca-lo em todos os lugares menos nos bancos, o verdadeiro homem da massa nao utiliza cartoes de creditos nao vai em cantigas em pagar sem juros ate 50 dias.ja viram algum chines num banco a depositar ou levantar a massa? digam-me quantos??Ja viram algum cigano (sem ofenças) a depositar ou levantar dinheiro de suas contas? Quantos?? pensem bem.Puxem pela a cabeça que esta inundada de palha (sem ofenças para os burros e cavalos e outros)>As publicidades dos bancos para agarrar o coitadinho que vai em cantigas leve agora 5000 euros compre o que quizer e começe a pagar 110 euros por mes durante 8 anos que no total tera que devolver os 5000 + 4000 de juros e cuidado com as ofertas de lcd, viagem maquinas de cafe expressos .Compre sempre a dinheiro e negocei sempre se possivel sem pedir a alguem

  8. Paulo Moreira says

    Boa tarde,

    Embora este post já remonte a Março de 2011, não posso deixar de informar que o FGD tem uma garantia atual e permanente de 100.000€ e não de 25.000€, conforme indicado.

  9. mestrejoao says

    Paulo, obrigado pela informação.

    Infelizmente esse aumento continua a ser virtual porque não corresponde a um aumento das receitas/capacidade financeira do fundo.



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